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riscos_e_rabiscos

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Eu não mereço isto.

Sou acordada algures pelas nove da manhã por causa de um papel. Levanto-me ensonada e entrego o papel. Logo de seguida, começam as lamúrias e as queixas. Toca o telefone. Percebo que não assumem aquilo a que se comprometem. Comento que se não queria fazer aquilo, não se devia ter comprometido. Levo com uma série de palavras duras e desnecessárias num tom de gritos que terminam em "deixa-me em paz". É a variação de "cala-te" que oiço tantas vezes porque as pessoas não gostam de ouvir o que lhes digo: a verdade.

 

Por aqui, a vida vive-se assim: um dorme de dia, fica acordado de noite e depois diz disparates que não devem ser levados em conta; o outro só tem olhos para o telemóvel e a sua vida resume-se a telemóvel, PC, e não saber falar sem ser aos gritos; a outra vive a queixar-se das dores, da vida, do que só dorme, de que não pode sair de casa por causa das paranóias do outro; o outro vive no desejo de ir à rua - e que só não o levo porque não tenho força -, de que brinquem com ele. E depois existo eu. 

 

Podem perguntar-me porque é que não vou para minha casa e eu resumo a resposta em três palavras: Não tenho dinheiro. Neste momento voltei a depender dos meus pais para sobreviver. Se não fossem eles a dar-me de comer. eu não tinha como o fazer. Até o único prazer que tinha tive de cortar: beber um café. Sessenta cêntimos podem parecer insignificantes mas eu não os tenho. 

 

A estrela da sorte nunca me sorriu, o pouquinho que tenho foi conseguido às minhas custas. Há aquelas pessoas que parecem ter o toque de Midas, em que tudo em que se metem corre bem- Fico feliz por elas, só lamento que não me aconteça o mesmo a mim só um bocadinho ou até de vez em quando. E isto acontece a coisas tão simples como isto: fazer uma peça de artesanato imperfeita e ter várias encomendas logo a seguir. Não me estou a queixar e nem a criticar, ainda bem que assim é, fico contente. Mas depois saber disto deixa-me a pensar na minha pouca sorte, que por mais que me empenhe naquilo que seja, ninguém lhe dá valor, que por mais que lute com unhas e dentes está sempre tudo igual. E isto deita-me abaixo, desmotiva-me, deixa-me triste. 

 

As únicas coisas boas que tenho na vida é o N. e os meus bichinhos e são eles que me vão dando alento. E se não fossem eles, eu já tinha desistido deste inferno que é a minha vida.

 

Estou farta desta vida madrasta. Eu não mereço isto. Acho eu mas se calhar até estou enganada.